De:  Helcias Pereira

Negritude e periferia

Talvez para algumas pessoas nada pudesse significar a realização de um debate no meio de uma favela, e como se não bastasse, justamente ao lado do grande lixão de Maceió. É possível até que a própria terminologia do debate ecoasse aos ouvidos de muitos como algo “incultural” ou primitivamente obsoleto.

O Espaço Cultural Guerreiros da Vila onde aconteceu a 5ª Edição do Tambor Falante, foi construído utilizando-se materiais advindos do lixão, e graças à força de vontade do atual presidente da Associação de Moradores Jailson Carnaúba – o Pelé, que se inspirando no projeto chamado “quintal cultural”, articulou o terreno e com o apoio de alguns moradores e do CEASB, arregaçou as mangas e “mandou vê”. Depois de inaugurado com importantes depoimentos e festa em agosto de 2009, o Espaço Cultural tem sido utilizado para realização de reuniões, debates, encontros, assembleias, ensaios artístico-culturais, atividades com os Guerreirinhos do Baú (outra coisa boa na Vila), projeção de filmes, documentários, entre outros.

Pois é... Neste sábado dia 30 de janeiro de 2010, reuniram-se no Espaço Cultural da Vila Emater II, representantes do Centro de Cultura e Estudos Étnicos – ANAJÔ, Pastoral da Negritude da Igreja Batista do Pinheiro, Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu – CEASB / Ponto de Cultura Guerreiros da Vila, Cooperativa dos Catadores da Vila Emater II - COOPVILA, Centro Cultural Quilombo dos Palmares, professores, moradores e lideranças locais da Associação de Moradores da Vila Emater II.

Os moradores foram chegando aos poucos e quando menos se esperou, “o tambor começou a ecoar”. Primeiro foi explicado o significado do TAMBOR FALANTE, suas temáticas e formas de  realização, bem como o porque desta vez ter sido escolhido a VILA EMATER para tal debate. Naturalmente os moradores demonstraram total interesse no assunto, principalmente quando se tocou nas questões de se viver na periferia e não ter a pele branca, nem qualquer requisito europeu para que alguns direitos sejam respeitados e conquistados. Falou-se do CENSO 2010 como um desafio para o Movimento Negro em conscientizar a população AFROBRASILEIRA quanto a importância de assumir sua NEGRITUDE, visto que a maioria descende dos povos africanos e indígenas. Questionou-se também se o IBGE teria “pernas” para que seus recenseadores alcancem verdadeiramente as periferias, principalmente as favelas quase sempre desordenadas geograficamente, e ainda, sobre outras particularidades a exemplo dos homossexuais, desempregados, deficientes, etc.

De repente um fala da parte mais alta da pequena arquibancada, apresentando seu repúdio ao preconceito racial. Outra pessoa mais a frente levanta a mão e denuncia sobre protesto os grandes supermercados cujos seguranças acompanham o cidadão negro por todos os recantos da empresa, disfarçando para não explicitar a desconfiança. Do outro lado alguém completa: E isso é porque somos negros ou não estamos bem vestidos, imagine se souberem que moramos na favela... Aí lascou! Exclamou outra participante.

O debate foi dinamizado com algumas exemplificações de casos reais de CRIME DE RACISMO, cuja população precisa estar atenta para saber como lhe dar em ocasiões parecidas. Na medida em que os fatos eram relatados, a platéia ia interagindo e aprofundando com bastante seriedade o tema em questão. Uma moradora sentada à frente pediu a palavra para dizer com voz firme que “o povo da Vila Emater é tratado como bicho, como coisas, por isso querem tirar a gente daqui como se agente fosse lixo. Eles querem tirar a gente daqui só porque somos pobres e pretos, na verdade eles querem que essas terras sejam entregues aos grandões, para fazerem suas mansões... é por isso que querem se livrar da gente. Não é por outra coisa não”. Concluiu.

Alguns convidados se pronunciaram e trouxeram uma rica reflexão sobre as questões do capitalismo mundial que exerce um papel fundamental entre a riqueza de poucos e a miserabilidade de muitos, cuja maioria é constituída por negros há muito empobrecidos. Foi dito com veemência que o RACISMO é uma prática que fortalece o capitalismo, porque interessa aos poderosos na manutenção de suas hegemonias e poderio econômico.

Na medida em que as intervenções eram aprofundadas, duas propostas foram apresentadas e pelo menos um compromisso real em relação aos casos de preconceito e crime racial. Os membros do ANAJÔ enquanto ONG ligada ao Movimento Negro se colocou à disposição da comunidade para acompanhar e orientar qualquer um que seja discriminado por conta da sua cor ou condição social. 

Com relação às propostas: A primeira é mais imediata por se tratar de um CINE FORUM com a projeção de um filme sobre a história de Nelson Mandela (mostrando um pouco as questões de racismo na África do Sul) e a segunda, a qual seria para o mês de março, trata da realização de um “ENCONTRO PERIFÉRICO SOBRE QUESTÕES ÉTNICAS E  DE GÊNERO”, considerando que a maioria das pessoas da periferia, inclusive da VILA EMATER descende do êxodo rural, cujas origens étnicas prevalecem dos povo negros e índigenas.

O 5º Tambor Falante foi concluído com uma foto coletiva e em seguida todos foram convidados para assistirem o ensaio da banda Guerreiros da Vila que sairá no carnaval com o bloco Afro Guerreiros.

VALEU GUERREIROS E GUERREIRAS DA VILA EMATER!

O que é o Tambor Falante

É uma nova forma de interatividade e transversalidade entre lideranças, ativistas, pesquisadores, amigos e quantos queiram, no sentido de se encontrarem para debater assuntos estratégicos e juntos discutirem propostas de ação, fomentando e promovendo interfaces entre públicos diretamente interessados e a sociedade em geral, inclusive atuar quando necessário junto aos setores governamentais e outras instituições. Na verdade não se tratam de encontros de coordenadores, delegados, diretores, etc. Trata-se de encontros de PESSOAS que se preocupam e buscam juntas contribuir com uma nova forma de atuação e transformação da sociedade. Um “tambor” ao ser acionado é capaz de “ecoar” com veemência todo um sentimento de dor ou alegria; um anúncio, uma reunião; uma busca de organização e luta. O “Tambor Falante” tem essa dimensionalidade e se fará presente em qualquer recanto em que seja necessária sua realização.

·         Helcias Roberto Paulino Pereira

Ativista negro desde 1988; foi membro da Coordenação Nacional dos APNs; É Arte-Educador; Membro Diretor do Centro de Cultura e Estudos Étnicos – ANAJÔ; Coordenador do Ponto de Cultura Guerreiros da Vila / CEASB.