![]() ![]() |
| << INÍCIO | A HISTÓRIA DA EXPERIÊNCIA | << QUEM SOMOS |
_________________________________________________ 1. Memória, Identidade e Territorialidade O Projeto Memorial Pirajá foi construído em torno da luta pela preservação desse território que hoje se denomina Parque São Bartolomeu/Pirajá. Esse lugar foi a inspiração primeira deste trabalho, capaz de reunir militantes, profissionais, lideranças comunitárias, religiosos, estudantes e professores das escolas. Desde o início, o parque é considerado como expressão de subjetividades, de desejos, saberes, afetos. Não apenas um instrumento, nem palanque de outras causas, mas o motivo, o símbolo que marca profundamente nossa identidade como povo, e ao mesmo tempo expressa as contradições e desafios da nossa cidade, na contemporaneidade. Quando as pessoas falam desse lugar, surgem os elementos que compõem a memória: da natureza em sua sacralidade, às mais caras lembranças dos povos que formaram a nossa baianidade e impregnam o cotidiano dos que visitavam e respeitavam aquele espaço, que se constituiu, desde muito tempo atrás, num lugar do viver, do lazer e da religiosidade afro-brasileira. Ribeiras de Pirajá, Enseada do Cabrito, aldeia e engenho de São João, Milagres de São Bartolomeu, Fábrica de São Bráz, Reserva Florestal do Rio do Cobre, Sítio Histórico da Guerra da Independência, Lagoa da Paixão, espaço de índios, portugueses, negros, caboclos, quilombolas, suburbanos, itapagipanos, soteropolitanos... Esse era o Parque "mítico", da memória, do querer, que ainda hoje resiste e se confunde com a metrópole, a cidade de Salvador, marcada pelo crescimento desordenado e segregador de numeroso contingente da população do Subúrbio Ferroviário e Valéria. Exclusão social, discriminação racial que se expressam não somente nos indicadores de saúde, desemprego e ausência de serviços sociais básicos mas também nos processos contínuos de desenraizamento, no que se fez - e desfez - para silenciar saberes e culturas, apagar a nossa alma, nos desterritorializar. Em torno dessa luta pelo Parque se construiu um trabalho de Educação Ambiental que hoje constitui o Projeto Memorial Pirajá, um trabalho conjunto do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia e do Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu, ONG que reúne a militância histórica do Parque. O Projeto Memorial Pirajá resulta desses dez anos de caminhada, e amadureceu um modelo de educação ambiental centrado na idéia da gestão do território pelos cidadãos. É justamente essa relação com o território e a luta por conquistá-lo - conquista aqui expressando o desejo de preservar e ao mesmo tempo reinventar o futuro, de participar da gestão - que se tornarão os elementos decisivos da construção dessa proposta: o motivo, a causa, a centralidade do lugar, com seus significados, conflitos e contradições e a mobilização social, a construção em comum e a cada dia dos ideais, propósitos e resultados desse trabalho, que constituem o fundamento dessa experiência. Nesse cenário de conflito, a luta pela conquista do Parque e o trabalho de educação ambiental que se construiu em torno desse objetivo têm sido um laboratório privilegiado para pensar sobre valores, ética, direitos, sociedades sustentáveis, desenvolvimento humano, poder, gestão social e utopia. 2. Da ação
social à educação ambiental: o imaginário
e a memória O Movimento em Defesa do Parque surgiu em junho de 1987, no interior de um trabalho de educação popular desenvolvido, desde 1975, por educadores da então Equipe Urbana do Centro de Estudos e Ação Social - CEAS junto ao movimento de moradores do Subúrbio Ferroviário. Nas associações de bairro, o São Bartolomeu era sempre lembrado: as referências a esse lugar eram constantes e o tom era de nostalgia - e encantamento. Falava-se da importância desse santuário ecológico e religioso - sobretudo das cachoeiras - e lamentava-se sua crescente degradação e abandono, que representava, para o subúrbio, a perda de um dos últimos espaços de lazer; E para os terreiros, a perda de um sítio sagrado, para a cidade, um dos raros monumentos relacionados à resistência de índios, negros e brasileiros contra a opressão. Era preciso responder ao apelo das lembranças ouvidas de moradores, e por outro lado, tentar rever os rumos de um trabalho de educação popular de base reivindicatório (por moradias, transportes, saúde, educação) ao qual se mesclavam iniciativas de gestão direta de serviços, no caso, creches, agentes populares de saúde, escolas profissionalizantes e comunitárias - trabalho geralmente apoiado pela Igreja Católica, mas muito marcado pela escassa presença, nos seus ritos, conteúdos e linguagens, do universo da memória coletiva e da cultura popular. A decisão de investir no que inicialmente se chamou uma "Campanha pelo Parque" aconteceu num momento em que, refletindo sobre o trabalho desenvolvido, desejávamos, como educadores, experimentar uma nova qualidade de ação cultural que ajudasse a superar a forma tradicional, puramente reivindicativa, a relação oferta-consumo presente nas práticas que alimentam o dia-a-dia do movimento comunitário, na direção de reunir a identidade dispersa dos setores populares e a contribuição de algumas experiências, especialmente das escolas comunitárias de Pau da Lima, Marechal Rondon, Arraial do Retiro e Itacaranha que se realizavam nesse âmbito. Preocupava-nos a relação autoritária, a imposição de uma lógica - reivindicar - obter - criticar - transformar - que constatávamos incipiente; queríamos contribuir, com o nosso trabalho, para a criação de canais efetivos de expressão e recriação da cultura popular, conquistar uma nova qualidade de prática democrática, uma nova sintonia entre educadores e base. São Bartolomeu, sem ser o único caminho para trabalhar essas questões, reunia em si muitas possibilidades:
Sendo uma iniciativa pequena, mas com a conjunção de muitos significados, São Bartolomeu, ofereceu a oportunidade de pensar a cidade e a organização do seu espaço, a natureza e a sociedade, o público e o privado. Essa experiência surge, portanto, da percepção da necessidade de unir a luta cotidiana por melhor viver, ao mundo da cultura, dos sentimentos, das identidades; à valorização da arte, da estética, à expressão dos indivíduos como elementos propiciadores de aprendizagens recíprocas. Para além da lógica conscientizadora/ homogeneizadora da intervenção social, na contramão de um clientelismo fortemente enraizado nos bairros e da tendência à cristalização do poder local, iniciou-se por percorrer outros temas, modos de fazer e espaços não usuais nos projetos de educação popular: falar do Parque, propor o parque, foi como uma revelação. Relendo o passado, queremos destacar os seguintes aspectos essenciais desse momento original de construção da proposta: 2.1 . A memória coletiva como elemento propulsor do trabalho: A explicitação, pelos atores do movimento de moradores, da questão da natureza, da estética, do prazer, da contemplação, o apelo do sagrado, da memória, da ancestralidade como valores constitutivos da sua qualidade de vida, contradiz a idéia de que sentimentos e necessidades elevados não constituem o universo das preocupações das camadas populares, mais envolvidas com a tarefa da sobrevivência. Antes, evidencia o preconceito social e a incapacidade de reconhecer e dialogar com padrões de racionalidade que não são considerados pela sociedade. É a forte presença desse apelo que dá sustentação a um sentimento mobilizador de vontades, e que, porque vivo, ressoa , permite o sonho. A memória, o simbólico, a identidade, são os elementos propulsores desse fazer que se inicia e se articula ao despertar das lutas pela afirmação da cultura e o orgulho popular. Nesse sentido, foi fundamental tentar recuperar os percursos dos que nos antecederam nesse interesse pelo parque. Em suma, o interesse pelo Parque faz parte de um movimento maior pela participação e construção da democracia. Do respeito aos que vieram antes de nós à afirmação da diversidade cultural como parte do patrimônio da humanidade. A história do Movimento em Defesa do Parque Metropolitano de Pirajá - ou São Bartolomeu - tem como antecedentes as iniciativas, na década de 70, com a FEBACAB, e com urbanistas que iniciam a implantação de um sistema de áreas verdes em Salvador, quando o crescimento da cidade passou a exigir um ordenamento do seu espaço. Na história desse lugar está impresso o sonho, esforço, trabalho e imaginação de várias pessoas, instituições religiosas, civis e técnicos de governo. Gente que tentou, em diferentes épocas e por diferentes motivos, modificar a lógica de destruição da natureza, dos símbolos que guardam a identificação desse espaço com os habitantes de Salvador, herdeiros de uma cultura rica, diversificada e discriminada ao longo do tempo. Queremos registrar aqui parte dessa trajetória, que se confunde com o esforço por preservar a história e memória do povo desta cidade, em simbiose com a memória da sua paisagem. Essas conquistas não escondem, entretanto, o paradoxo de se viver na terra onde habitam cerca de 80% de negros e seus descendentes, e presenciar o preconceito racial, o descaso para com os sítios e monumentos significativos da cultura afro-brasileira, cujo desaparecimento, na maioria dos casos coincide com a devastação ambiental da cidade; a contínua descaracterização dessa cultura pelo turismo, a folclorização de seus valores religiosos, o desamparo de seus mestres. 2.2. O amor e o trabalho: pessoas também agem por valores e paixões e o segredo é fazer junto, compartilhar. Existe uma relação necessária entre o fazer educacional e o amor à causa que se abraça, entre a militância e a competência, o olhar e o fazer interessado, que tornam o processo educativo um processo vivo, construtor de cidadania, e que só faz sentido se realizado em comum. Nesse sentido, a experiência se processa ao mesmo tempo em que se constrói e solidifica um movimento social que lhe dá sustentação. Não sendo originalmente parte de um movimento ecológico, nem filha da reflexão acadêmica, nem tão pouco dos ditames da política oficial e educacional. No entanto, de todos esses projetos se enriquece e se beneficia no seu percurso. Aos poucos, o Movimento de Defesa do Parque que começa a partir de um núcleo de educadores, lideranças, associações de moradores, clubes de mães, terreiros de candomblé, foi incorporando profissionais, ambientalistas, artistas e profissionais. Hoje, de sua coordenação fazem parte a Federação Baiana do Culto Afro-brasileiro, e representantes dos conselhos das associações de moradores das regiões do Subúrbio Ferroviário e Valéria. 2.3. A construção: o olhar atento, o concreto e o insondável Finalmente, a experiência se nutre também da reflexão e de olhares atentos, tanto quanto possível para aqueles que estão imersos e comprometidos com uma causa, de diálogos efetivos e surdos e de inquietações sempre recorrentes de como melhor fazer, superar os obstáculos, enfrentar as dificuldades, se apoiar nos êxitos, e se mover nos constantes desafios que a cada momento se apresentam. Toda a "arquitetura" deste projeto é móvel, acompanha os lances da história cotidiana, e se assenta na conexão entre o concreto e o insondável, o chão necessário e o vôo, a liberdade, a aventura. A imaginação do projeto correspondeu, em primeiro lugar, a uma leitura inicial das virtualidades do parque e do necessário entrelaçamento entre as questões sociais e ambientais, da idéia da inseparabilidade entre o destino do parque e da população do seu entorno, do homem e da natureza. Em segundo lugar, das oportunidades de trabalho que surgiam, dando chance ao desenvolvimento de propostas pensadas junto com a comunidade, num duplo movimento de aproximação e tensão, de conflito, encontro e aprendizagem que permitiram elaborar a proposta de educação ambiental, a concepção de parque e as necessárias conexões com as políticas públicas para a área. Também o contato com as instituições e pessoas com as quais desenvolvemos cooperação ensinou, e ajudou a definir estratégias institucionais capazes de dar sustentação ao projeto, delineando o papel específico que cumprem as entidades de interesse público também chamadas não governamentais. A criação do Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu passou por sucessivas fases: a equipe de educadores que concebeu o projeto trabalhou sob o amparo legal do Grupo de Recomposição Ambiental GËRMEN, Grupo que assinava em nome do Movimento, o convênio com a prefeitura. Tentou, mais tarde, estruturar o trabalho educativo na Associação dos Amigos do Parque, entidade que seria aglutinadora deste movimento, mas que se esvaziou, a partir de 1995, diante de disputas políticas e das tentativas de atrelar o trabalho educativo a objetivos partidários. Diante disso, e com o aval das principais entidades fundadoras da Associação e do Movimento de Defesa do Parque, fundou-se, em 1996, o Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu, e assim, conforme estava previsto no projeto iniciado em 1994, se constituiu este Centro, como um serviço educacional ao movimento de defesa do parque e a outras regiões. 3. De onde
viemos, de onde falamos: A montagem da metodologia pela equipe de trabalho sofreu múltiplas influências, explícitas ou implícitas. A primeira delas, decorrente da vivência em grupos ligados à Igreja Católica, foi a prática da reflexão sobre o cotidiano e a tomada de decisões como resultado da reflexão, provavelmente, que tem sua origem tanto na Ação Católica como na vivência em Comunidades Eclesiais de Base. O trabalho no CEAS (Centro de Estudos e Ação Social), de cuja equipe urbana faziam parte três dos membros do Centro de Educação Ambiental, marcou certamente não apenas o compromisso com uma ação junto à população de baixa renda - resultante das opções da Igreja progressista no Brasil e na Bahia, como também, (inclusive no conflito), a própria pedagogia do assessor do movimento popular - preocupada com um fazer com, na busca da construção de um mundo melhor, mais justo, mais feliz. A - A construção do bem comum. Cidadania - obedeço às leis que eu mesmo criei. Outras influências se fizeram presentes na construção da experiência. Marcadamente, a valorização da democracia, da participação, em que a vivência da cidadania se impunha. Nesta construção da cidadania, na discussão de formas de gestão em que o cidadão se sente parte da tomada de decisão está a origem do pensar o território - visto não como propriedade individual, mas como bem coletivo, comum a todos. Neste pensar o bem comum e sua gestão está também a noção de participação: o cidadão é aquele que obedece a regras de cuja criação participa - seja diretamente, seja através de representantes. B - Ação, reflexão, ação: Somos todos filósofos e capazes de transformar o mundo A construção da consciência e prática democráticas tem aportes de outras correntes teóricas e políticas. No marxismo, Gramsci enfatiza a ação cultural e a crença em cada homem como "filósofo", como ser capaz de transformar sua consciência na direção de uma consciência filosófica através da praxis, da ação reflexiva para a transformação social. Retoma-se a idéia de que a transformação é um "que fazer" coletivo e, como tal, demanda a capacidade de reunir vontades desagregadas em torno de objetivos comuns - articuladas num consenso. No trabalho do dia a dia, na organização e na experimentação dos Projetos de Intervenção, a difícil tarefa de construir o consenso, de entender seus limites - além dos limites da própria ação. Para a construção do consenso, da ação coletiva, a necessidade da existência de uma linguagem comum; a expressão, interação e o diálogo como elemento necessário à ação transformadora. A transformação do mundo supõe a construção coletiva de uma utopia. A construção do consenso (a construção da vontade comum), por sua vez, demanda a existência de um "cimento" que una, que ligue o grupo de homens entre si e também a decisão sobre a direção da mudança que se quer obter. A construção do sentimento de pertenência a determinado grupo depende da existência de uma solidariedade entre eles, da construção de uma identidade em torno a um projeto, na direção de uma utopia. Repetem-se as perguntas: a mudança se faz espontaneamente? Quem educa o educador? A necessidade de ler o mundo - agora território - não visa apenas entendê-lo, mas transformá-lo. C - A precedência da leitura do mundo e ação cultural para a liberdade. O tributo maior a ser feito, porque sempre presente no trabalho, é ao pensamento e à pedagogia de Paulo Freire. Aqui, o resgate do saber do outro, a ênfase na idéia de que a leitura do mundo precede a ação. O trato da questão da linguagem como parte de um universo cultural. Na experiência do grupo, a valorização da cultura oral advém, também, do contato com o rico conteúdo das culturas afro-baianas, com os falares locais. Elas também são responsáveis pela luta no sentido do reconhecimento da presença negra na Bahia e no Brasil. O trabalho do grupo tem como ponto de partida uma pedagogia da ação social, presente no " fazer" do trabalho no bairro. Os princípios básicos - as linhas de força da proposta - vieram principalmente da prática nas escolas comunitárias:
Em resumo, uma educação integrativa, voltada para a construção do sujeito da aprendizagem como dotado de corpo, identidade cultural, afetos, história e demandas pessoais. 4. O início da construção da proposta: - o projeto de formação dos Guias e Guardiães do Parque como matriz. Em outubro de 1990, o Clube de Mães dos Novos Alagados - As Heroínas do Lar - fundado desde 1984, solicitou dos educadores do CEAS ajuda para realizar um trabalho de educação e formação profissional a ser desenvolvido junto a adolescentes da área, na tentativa de diminuir o alto índice de marginalização e violência a que estavam sujeitos e ao mesmo tempo facilitasse sua inserção futura no mundo do trabalho. Das discussões, foram levantados os possíveis caminhos que poderiam unir esse objetivo às possibilidades que o parque oferecia, fugindo das propostas tradicionais de "profissionalização" que, além de muito instrumentais, não garantiam ganhos reais para os envolvidos. Nesse sentido foi elaborado o Projeto de Formação dos Guias e Guardiães, uma proposta de educação pelo trabalho que unia as possibilidades oferecidas pelo parque às demandas de formação integral desses adolescentes, tomados, desde o início, como protagonistas da proposta de preservação do parque e participantes do dinamismo cultural da região. O projeto dos Guias e Guardiães foi aprovado pelo Ministério da Ação Social através da Fundação Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência, , como um dos projetos piloto da Ação Emergencial contra a Violência, e pela Prefeitura Municipal de Salvador. Sua implantação foi precedida de uma mobilização das comunidades para sua discussão. Em 1992 foi realizada a seleção da primeira turma de 60 guias a partir de 600 candidatos inscritos a partir de convocação no subúrbio e nas escolas. Mais tarde, em 1994, esse trabalho foi apoiado pela Fundação Odebrecht, para ser continuado em 1995 e 1996, pelo UNICEF. Formou, entre 1992 e 1995, 82 Guias e Guardiães. Moradores das imediações do Parque (Subúrbio e Pirajá), e conhecedores dos diferentes e contraditórios sentimentos e relações que esta comunidade mantinha com o Parque, os guias e guardiães seriam elo importante de ligação com a comunidade e visitantes do Parque, participando de um amplo e contínuo programa de educação ambiental voltado para responder ao desafio de reverter o processo de destruição, da natureza no contexto urbano, numa região de extrema pobreza. Pretendia-se incluir , chamar, trazer jovens para o trabalho em torno do parque - consciência e ações de preservação a seleção dos adolescentes e sua preparação para serem guias e guardiães do Parque: os que mostram , que levam, encarregados de guardá-lo, de cuidar dele. A formação dos Guias supunha:
Uma equipe multidisciplinar foi montada,. para o desenvolvimento do curso, incluindo arte-educadores, especialistas em linguística, história, geologia, educação, antropologia e biologia, com a colaboração das Universidades Estadual e Federal da Bahia. A reflexão constante entre esses profissionais permitiu delinear um programa trabalho articulado, e o diálogo entre as disciplinas possibilitando a discussão e resolução das tensões entre o trabalho específico e a necessária integração interdisciplinar. A metodologia considerou sempre a necessidade de amarrar a ação educativa a resultados concretos, a ações voltadas para o exercício desde já do papel de seus "reinventores" junto à comunidade, tendo a construção em comum como princípio de todo o conhecimento da realidade e delineamento das ações. Projetos de intervenção como
centro do currículo
O trabalho pressupunha a idéia de que o destino do Parque estava estreitamento vinculado ao processo de melhoria das condições de vida da comunidade. Exigiu, portanto, um exercício constante de organização de um imaginário em comum sobre o Parque e a mobilização social em torno de questões de interesse da comunidade. Os recursos existentes possibilitaram a organização de equipes de trabalho voltadas para esses objetivos e a experimentação/ensaio de atividades que antecipavam possíveis usos sustentáveis do parque. O grupo foi subdividido em grupos de trabalho, cada um deles trabalhando em torno a um objetivo: publicação de Jornal; implantação de viveiro de plantas, peça de teatro, campanha de arrecadação de livros, ação nas escolas, programa de rádio, o que afinal configurou o currículo construído dentro de uma metodologia de projetos, onde a integração das disciplinas estava direcionada para a construção dos produtos articulados ao ideário que se ia construindo em torno do Parque. O projeto de Formação de Guias e Guardiães estava estruturado em uma parte de formação geral - que era comum a todos os grupos de trabalho formados por eles - e uma formação específica, de acordo com a área de estudos - trabalho escolhida por cada grupo. A formação geral estava voltada por sua vez para dois campos:
A formação específica estava formada para a aquisição de conhecimentos e habilidades que levassem à formação de grupos de trabalho, que tiveram como resultados:
Como atividade permanente, que funcionava como origem e pano de fundo, a mobilização. O Movimento pelo Parque é que serviu de inspiração para o processo educativo, este acionado como estratégia de luta pela sua implantação. A proposta curricular dos guias teve como componente inesperado a escassez de recursos, o descumprimento por parte dos órgãos públicos de suas obrigações constantes dos convênio firmados, na realização dos repasses aprovados, que incluía bolsas de estudos para os jovens participantes e prazo mínimo de realização dos trabalhos. Outro condicionante importante e que marca todo o desenvolvimento da experiência foi a impossibilidade de uma ação sistemática no parque, devido à violência, o perigo dos assaltos, que punha em risco a vida das crianças. Toda a experiência desenvolvida no âmbito do projeto de educação, esteve marcada pela necessidade da conquista do território não só como forma de garantir sua conservação mas também como possibilidade de uso pleno das suas possibilidades. A realização da proposta pedagógica do projeto sempre incluiu ações e reflexões envolvendo comunidade, pais e alunos na discussão das dificuldades operacionais e montagem de estratégias de enfrentamento junto aos órgãos públicos, o que incluiu a inserção, nos projetos específicos, de atividades ligadas à visibilidade da luta para manter o projeto e aumentar a capacidade de pressão política da comunidade. Tais questões perpassaram todo o conteúdo de formação para a cidadania do curso, somando-se às estratégias construídas em comum para a "Campanha pelo Parque". O projeto de formação dos Guias e Guardiães funcionou até o ano de 1996. Neste ano, as atividades foram centradas no trabalho de mobilização, através dos grupos de teatro e jornal, além do trabalho com as escolas. (inserir aqui a descrição e os boxes c/ o histórico folder) 5. A ação nas escolas: O início da atuação nas escolas veio da necessidade de reforçar a mobilização, pela ampliação do raio de influência do Movimento. A intenção foi buscar um enraizamento junto às instituições locais e dar-lhe um caráter de maior permanência. A escola como instituição que se presente no cotidiano e em vários espaços simultaneamente, e maior amplificação ao trabalho. Foi concebido um projeto piloto, envolvendo 7 escolas - depois . Inicialmente, a metodologia envolvia 2 formas de intervenção: 1 - leitura da realidade e 2 - mobilização em torno de uma questão comum. Em 1994, escolhida a questão do lixo e uma escola piloto, com experimentação de pequenos projetos: A capoeira, a luta, a memória oral. Nos anos seguintes, adota-se a estratégia dos projetos de intervenção tendo como campanha unificadora o Parque. A partir de 1994, iniciou-se a ação em seis (sete) escolas municipais localizadas no entorno do Parque. Esse trabalho evoluiu de um acompanhamento do trabalho docente e intervenção direta dos educadores e guias do projeto nas classes de 3a. e 4a. séries osterior mente , todo o ensino básico .... participantes, até o funcionamento, a partir do segundo ano, de um polo de capacitação específico para os professores participantes do projeto, em conjunto com o Centro de Estudos Afro-Orientais e a Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal da Bahia. Em 1994, foi organizado, em articulação com os Guias e Guardiães do Parque, o Diagnóstico Ambiental dos bairros de Ilha Amarela, Rio Sena e Alto do Cruzeiro, num trabalho interativo que incluiu o imaginário das crianças, dos guias e guardiães, e da comunidade sobre a saúde e a doença, o mapeamento dos problemas do bairro, as doenças mais recorrentes, suas causas e formas de tratamento, em confronto com os dados oficiais. O diagnóstico revelou a riqueza de conceitos e expectativas da população sobre a saúde, sua cultura e formas de lidar coma questão, e suscitou o primeiro projeto de intervenção voltado para a retirada de pontos de lixo no bairro. A partir de 1995, em cada escola, as crianças foram estimuladas a criar seus próprios projetos de estudos e intervenção, de acordo com seus desejos, problemas e necessidades detectados. O trabalho junto às escolas estruturou-se portanto a partir de dois movimentos:
A capacitação do professor se baseou na idéia de que:
Por sua vez, os projetos de estudos e intervenção das escolas resultam dos diversos olhares sobre o lugar, do equacionamento dos problemas e necessidades dos segmentos envolvidos na escola, tais como o lixo, a recreação, a biblioteca, o espaço verde, a memória do lugar e das pessoas, as relações interpessoais e fornecem material para o trabalho na sala de aula, na medida em que dela saem e a ela retornam, integrando diversas disciplinas. Nesse movimento, tanto professores como alunos e educadores do projeto se constituem como pesquisadores, ao formular e executar o roteiro do trabalho, buscar os materiais e meios necessários, avaliar, sistematizar e comunicar resultados. Esses projetos de intervenção sociais requisitam imaginação, olhar crítico, estudo, avaliação e escrita. Na prática, a construção e produção do conhecimento se realizam no uso das linguagens numa perspectiva de comunicação social. O teatro, a fala, a escrita, a música, as diversas formas de literatura, a expressão plástica, a produção de bens culturais como o jornal, o mural, o fichário da biblioteca, comunicados, bilhetes, em suma, estão voltados para a gestão ambiental. Nessas situações, os alunos têm oportunidade de se exercitar como interlocutores- oradores, ouvintes, escritores, leitores- e produzir discursos para um uso e sentido social, porque gerados a partir das necessidades da prática, como, por exemplo, o planejamento, execução, sistematização e avaliação dos projetos. A construção desses projetos pelos alunos ensejou além disso um esforço desenvolvido nas capacitações dos professores, de valorização dos conhecimentos dos alunos e da comunidade; buscou-se interligar os conteúdos das áreas aos projetos das crianças, tornando-os base do trabalho interdisciplinar. 6. Do Parque que Queremos ao Memorial Pirajá Construir o memorial é o grande objetivo deste trabalho. Em torno desse objetivo se dinamizou um movimento permanente de moradores que identifica a educação como fator fundamental para sua emancipação, na perspectiva de um futuro melhor e da solidariedade com os que vêm depois de nós. Construída no processo dos Seminários o Parque que Queremos, entre 1996 e 1997, a proposta do Memorial se confunde com a proposta de implantação do parque, extrapolando seus limites e articulando a uma perspectiva de integrativa homem-natureza. O Memorial Pirajá é o movimento de preservação e desenvolvimento sustentável de um dos territórios mais ricos do ponto de vista natural, arqueológico, histórico e cultural da Região Metropolitana de Salvador e a construção da identidade local, através da educação ambiental e cidadã, em seus valores absolutos e de relação com a cidade e a cultura baiana . (Ormindo, 1997). Nele, a história, o ambiente, e os significados simbólicos, as práticas eventuais da vida cotidiana, constitui a idéia de um parque-memorial, museu aberto e reserva da biosfera da Mata Atlântica. O Memorial Pirajá é tempo e lugar, cenário e representação do que só pode ser entendido como síntese. Essa é a essência do memorial: água e mata, céu: sol, lua e estrelas. O homem e seus deuses, os lugares dos deuses e dos homens. Espaços sagrados e profanos, tempos sagrados e profanos. Vivenciação, conhecimento, ensino, aprendizagem, compreensão do simbólico, do sentido de ser e estar no mundo. Como totalidade, entretanto, o Memorial Pirajá é parte, mas que incorpora o sentido do todo a que pertence. Parte da história da Bahia, da diversidade de sua formação étnica: índios, negros e brancos de muitas e distintas culturas de três grandes continentes, jogos de tempos e de civilizações; mas também de sua independência, das batalhas de Pirajá, onde está o Panteón da Independência, o túmulo de Labatut. Parte do território, parte do tempo, parte de Salvador. Na dimensão do sagrado, a cultura afro-brasileira; na ambiental, memória e presença; na urbanística, um lugar, espaço amplo e articulador de funções fundamentais; lúdico, religiosas, de contemplação, lazer, visitação, às quais se agregam as do conhecimento e da prestação de serviços e de formação educacional ampla. Nesses sentidos todos, o significado do Memorial Pirajá. (Gei Espinheira, 1997). Este, o nosso imaginário convocante. Anexo 4 "Participação Comunitária na Educação em saúde" Este estudo visou construir um diagnóstico do problema de saúde no entorno do Parque que integrasse a experiência vivencial dos moradores e a visão dos especialistas. A idéia é assegurar, com este tipo de análise, alto grau de legitimidade do que se vier a propor, já que bem contextualizado e próximo das expectativas dos que vivem neste lugar. Em um primeiro nível, interessou-nos as percepções dos moradores deste lugar; em um segundo nível, as possibilidades de influenciar estas percepções dos moradores e escolares no sentido de levá-los a instituir ações transformadoras neste lugar. Em 1994, alunos e professsores das seis escolas municipais situadas no Subúrbio Ferroviário de Salvador, em zonas limítrofes do Parque São Bartolomeu, realizaram um trabalho de educação em saúde e campanha do lixo nas escolas e nos respectivos bairros. Nessa ocasião, fizeram um mapa das ruas em torno da escola mostrando as condições ambientais: a falta de arborização, o esgoto a céu aberto, os pontos de lixo, os buracos na rua que dificultam o tráfego de carros e os pontos de lixo. Realizaram também pesquisas junto à comunidade, aos postos de saúde e Secretaria Municipal de Saúde. O principal resultado deste trabalho foi uma avaliação da situação ambiental e de saúde do subúrbio, na perspectiva dos moradores, dos alunos e das instituições de saúde. A pesquisa tinha como investigar as percepções e sentimentos dos moradores com relação a saúde e doença e ao lixo. A estratégia utilizada foi o grupo focal, instrumento cujo traço principal é promover uma conversa informal e franca entre moradores sobre um tema préviamente selecionado, a partir de provocações criativas do pesquisador e, deste modo captar aspectos espontâneos do comportamento e sentimento do público-alvo com relação à saúde e doença e ao lixo. ROTEIRO DE DIAGNÓSTICO DA SITUAÇÃO AMBIENTAL PELOS ESCOLARES
ROTEIRO PARA OS GRUPOS FOCAIS
RESULTADOS DA ENTREVISTA REALIZADA PELOS
ESCOLARES
REPRESENTAÇÕES DE SAÚDE E DOENÇA DOS ESCOLARES
Síntese do Mapeamento e Pesquisa 1) Pouco mais da metade das ruas da área pesquisada tem condições de tráfego 2)Mais da metade das ruas (63,16% ) são arborizadas 3) A quase totalidade das ruas tem esgoto deficiente (71,05%) 4) A quase totalidade do esgoto é lançada a céu aberto (68,42%), sendo que uma parte significativa compromete os cursos d'água. 5) O serviço de água tratada chega quase a 100%, porém falta água constantemente e a população faz uso de fontes duvidosas no que diz respeito à qualidade. 6) Em quase todas as ruas são encontrados pontos de lixo e lixo espalhado (76,31%) 7) Apenas 10% da área possui caixa coletora de lixo 8) As informações obtidas através do mapeamento são confirmadas pelos dados da Sec. de Saúde, que revelam que o Subúrbio apresenta os maiores índices de doenças infecciosas e parasitárias, cujas causas estão intimamente relacionadas com o saneamento ambiental. Todas essas informações e conhecimentos produzidos e construídos têm importância na medida em que suscitem e sejam propulsores de uma ação responsável frente aos problemas detectados. Assim ,estamos entendendo que a cidadania está condicionada a um trabalho de percepção reflexiva sobre o lugar. É o conhecimento crítico e exploratório do lugar que permite o enfrentamento consequente dos problemas que emergem . A devolução para os pesquisados pode se dar mediante a elaboração de um projeto de intervenção na área ou a produção de textos que estabeleçam um confronto entre os conhecimentos do senso comum, popular e científico sobre saude e doença e lixo do subúrbio que permitam o desvelamento do caráter reprodutor, ideológico, de classe, neles contidos. A esse respeito, vale lembrar que o diálogo entre os diversos tipos de saberes, que vem sendo colocado pela academia de forma tranquila, deve ser problematizado em sala. Uma das vias pode ser através desse trabalho empírico em que o grande desafio é lidar como todo o acervo de conhecimentos inventariados na sala de aula. O que fazer como esses conhecimento. O desafio é conquistar no currículo um lugar legítimo para esses saberes construídos colados à trajetória de vida dos indivíduos, não só como ponto de partida para o conhecimento científico mas como conteúdo propriamente dito do currículo. |
||||||||||||||||||||||||||||
|
|
| CEASB - Centro de Educação Ambiental
São Bartolomeu Praça Inocêncio Galvão, Nº 42, Largo 2 de Julho. Salvador - Bahia. CEP: 40.000-000. Tel. 321-9903; ceasb@hotmail.com |
| INÍCIO - Quem Somos - Pq. São Bartolomeu - Projetos - Notícias - Publicações - Fale Conosco - Links - TOPO |